Da colonização à política: a violência que ainda ameaça os direitos humanos das mulheres negras

A violência contra mulheres negras atravessa séculos da história brasileira e também se manifesta na política. Do processo de colonização aos ataques contra mulheres negras que ocupam espaços de poder, o feminicídio político revela os desafios para garantir direitos e uma democracia verdadeiramente plural.

Sumário

Em março de 2018, a vereadora Marielle Franco foi morta ao ter o carro alvejado; em janeiro de 2026, a deputada Renata Souza prestou queixa após receber ameaças de morte por um e-mail racista.

Ao percebermos que até as parlamentares eleitas pela população sofreram ataques a suas vidas, como vamos entender que a democracia e a política estão fazendo seus papéis?

 

Da colonização à objetificação do corpo da mulher negra

 

Para entender a profundidade desse assunto, é importante que voltemos ao início desse processo de violência: na colonização brasileira.


Arquivo digital da Biblioteca Nacional 

 

Uma pesquisa feita pela Universidade de Emory estima que mais de 2,6 milhões de pessoas escravizadas, entre homens e mulheres, passaram pelos portos do Rio de Janeiro entre os anos de 1500 e 1856. Como ainda não se têm dados exatos sobre a quantidade de mulheres nessa época, vamos estimar que o número pode ser entre 1.300.000 e 650.000 (metade do número ou um quarto, respectivamente).

Todas elas passaram por diversas formas de exploração: lavoura, trabalho doméstico, como amas de leite e também sofreram abusos sexuais de seus senhores de engenho.

No artigo “A construção da identidade da mulher negra”, as autoras vão citar que, nesse período, as mulheres negras já precisavam ficar atentas à perseguição e à objetificação que seu corpo sofreria em detrimento à sua cor de pele.

 

A permanência da violência contra as mulheres negras 


Hoje, em 2026, século XXI, o que mudou?

De acordo com os dados do Observatório de Feminicídio do RJ, em 2025, cerca de 25.058 mulheres vítimas eram negras. Esse dado projeta o reflexo que não ficou no passado, mas que se perpetua até os dias de hoje.

Na publicação “Produções Científicas Brasileiras em Psicologia sobre Violência contra Mulher por Parceiro Íntimo”, as autoras vão revisar algumas pesquisas e vão concluir que esse fato ocorre em detrimento ao ciúme ou sentimento de posse.

“No que se refere à identificação de crenças de mulheres sobre o fenômeno, o ciúme apareceu como uma das principais causas para as situações de violência (…) Comumente, o comportamento ciumento está associado ao direito de posse que o homem acredita deter sobre a mulher, tratando-a como sua propriedade.”

Vamos aqui entender que esse sentimento não nasce sozinho com a sociedade contemporânea; ele vem sendo construído desde a colonização do Brasil, onde homens brancos europeus abusavam sexualmente e perseguiam mulheres negras escravizadas. Não é difícil traçar uma ordem cronológica referente a esse pensamento: perseguem e exploram porque objetificam; um objeto tem dono; se o dono é o homem, então ele tem o direito de deixar viver ou não, agredir ou não.

 

Mulheres negras, política e a disputa pela democracia 





Arquivo site Mulheres Negras Decidem 


Essa situação piora quando percebemos que, na política do Rio de Janeiro, a maioria são homens. O TRE-RJ confirma que, em 2022, o estado elegeu governador, vice-governador, um senador, 46 deputados federais e 70 deputados estaduais. Já a Câmara Federal registra 9 mulheres entre os 46 representantes eleitos pelo Rio, portanto, 37 homens. E, na Alerj, a nova legislatura passou a ter 15 mulheres entre 70 deputados, ou seja, 55 homens.

Se, historicamente, os homens vêm sendo influenciados por essa cultura de dominação do corpo da mulher negra e também são eles que estão em maioria nos cargos legislativos, como conseguimos leis importantes para garantir direitos humanos às mulheres negras, inclusive as que estão na política?

É importante que nós, enquanto mulheres negras vivas e honrando o papel dos nossos ancestrais na sociedade, estejamos a par dessa discussão de democratização aos direitos humanos. Precisamos nos letrar, estudar e, mais do que nunca, entender em quem vamos votar, já que o Tribunal Superior Eleitoral registrou que, nas eleições de 2024, as mulheres representaram um total de 52,4%.

Precisamos garantir que os nossos mais novos tenham um futuro bom de viver e, para isso, é preciso lutar hoje.

Para entender um pouco mais sobre o feminicídio político, aconselhamos a leitura do livro “Feminicídio Político”, de Renata Souza, em parceria com outros grandes nomes.


Este conteúdo foi produzido com apoio do Programa Orire de Apoio às Mídias Independentes 2026, iniciativa do Instituto Orire voltada ao fortalecimento do jornalismo independente e da produção de informação de interesse público.

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