O conceito de ‘Bem Viver’ tem ganhado espaço no Brasil entre organizações e movimentos sociais que discutem desenvolvimento, direitos e redução das desigualdades. Com origem associada às cosmovisões de povos indígenas andinos, a proposta defende uma compreensão de qualidade de vida que não esteja limitada ao crescimento econômico e considere também as condições coletivas de existência, o acesso a direitos, a relação com os territórios e a natureza.
Bem Viver ganha novas perspectivas a partir das experiências de mulheres negras
No Brasil, movimentos de mulheres negras incorporaram o ‘Bem Viver’ às discussões sobre justiça racial, enfrentamento às desigualdades e garantia de direitos. O debate considera que indicadores econômicos, isoladamente, não são suficientes para medir as condições de vida de uma população marcada por diferenças de renda, raça e gênero.

Marcha Nacional de Mulheres Negras
por Reparação e Bem Viver em 2025
Foto: Banco de imagens da Marcha
Os índices de violência contra mulheres são um dos indicadores dessas desigualdades. Entre 2021 e 2024, mulheres negras representavam 62,6% das vítimas de feminicídio registradas no Brasil, segundo análise do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Os dados mostram como raça e gênero interferem de maneira combinada nas condições de segurança e proteção das mulheres. O conceito de Bem Viver aplicado a essa realidade inclui, além da proteção contra a violência, acesso à renda, trabalho digno, saúde, educação, moradia, segurança e participação social.
Mulheres seguem sub-representadas nos espaços de poder
A representação política também integra esse debate. Apesar de serem maioria na população brasileira, as mulheres permanecem sub-representadas nos espaços institucionais de poder.
Nas eleições de 2026, as mulheres correspondem a cerca de 35% das candidaturas registradas no país. A diferença entre a participação feminina na população e sua presença na disputa eleitoral evidencia a permanência de obstáculos para uma representação mais equilibrada nos espaços de decisão.
O cenário apresenta outras desigualdades quando analisado pelo recorte racial. Mulheres negras formam uma parcela expressiva da população brasileira, mas sua presença nos espaços políticos ainda não acompanha essa dimensão populacional.
A ampliação dessa representação é defendida por organizações e movimentos de mulheres negras como uma das formas de incorporar aos processos de formulação de políticas públicas experiências de grupos historicamente menos presentes nos espaços institucionais.
No Rio de Janeiro, a deputada estadual Renata Souza integra a presença de mulheres negras no Legislativo fluminense e tem atuação relacionada a pautas de direitos humanos, enfrentamento ao racismo e direitos das mulheres.
“A presença de mulheres negras nos espaços de decisão amplia as experiências e demandas consideradas na construção das políticas públicas. Representação precisa estar associada à garantia de direitos e à criação de condições dignas de vida para a população”, afirma Renata Souza.

Deputada estadual Renata Souza
Foto: acervo próprio
Eleições ampliam debate sobre representação
A discussão sobre participação política ganha maior visibilidade em 2026 com a realização das eleições gerais. O período eleitoral coloca em debate propostas para áreas diretamente relacionadas às condições de vida da população, como saúde, educação, segurança, trabalho, renda, moradia e mobilidade.
Nesse contexto, a relação entre Bem Viver e política institucional não se limita à identidade de quem ocupa os cargos eletivos. O conceito também permite analisar propostas, prioridades e políticas públicas a partir de seus efeitos sobre grupos atingidos de maneira desigual pelos problemas sociais.
A participação democrática inclui ainda o acompanhamento dos mandatos, o acesso a informações sobre propostas e projetos, a fiscalização da atuação dos representantes e a consulta a fontes confiáveis durante o processo eleitoral.
O Bem Viver amplia, dessa forma, a discussão sobre desenvolvimento ao considerar não apenas indicadores econômicos, mas também as condições concretas de acesso da população à segurança, renda, serviços públicos, participação política e demais direitos fundamentais.
Este conteúdo foi produzido com apoio do Programa Orire de Apoio às Mídias Independentes 2026, iniciativa do Instituto Orire voltada ao fortalecimento do jornalismo independente e da produção de informação de interesse público.


