No Morro da Serrinha, em Madureira, a memória da favela também está guardada em suas manifestações religiosas e culturais. O jongo, os terreiros e a tradicional celebração realizada na Pedreira de Xangô fazem parte de uma história construída e transmitida entre gerações de moradores.
Há cerca de oito décadas, a Festa da Pedreira de Xangô mantém uma tradição associada à trajetória de Vovó Maria Joana, liderança religiosa e comunitária da Serrinha. Todos os anos, a celebração reúne praticantes de religiões de matriz africana em homenagem ao orixá Xangô.
A permanência dessas tradições ajuda a contar uma parte da história das favelas cariocas que nem sempre aparece quando esses territórios são retratados apenas pela pobreza ou pela violência.
Muito antes de serem reconhecidas como patrimônio ou receberem políticas específicas, manifestações culturais e religiosas foram preservadas pelos próprios moradores. Na Serrinha, a ancestralidade está ligada à formação cultural do território e às redes comunitárias que permitiram que conhecimentos, celebrações e práticas religiosas atravessassem gerações.
Essa preservação, porém, não deveria depender exclusivamente das comunidades.
A Constituição Federal determina que o Estado deve garantir o livre exercício dos cultos religiosos e proteger seus locais e liturgias. Também estabelece a proteção das manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras.
Quando esses direitos chegam às favelas, a discussão envolve mais do que liberdade de crença. Envolve a possibilidade de manter espaços religiosos, realizar celebrações, preservar lugares de memória e transmitir conhecimentos que fazem parte da história do próprio território.
Ao mesmo tempo, essa memória convive com o racismo religioso que atinge principalmente tradições de matriz africana.
No Estado do Rio, a Assembleia Legislativa criou, em 2021, o Observatório Mãe Beata de Iemanjá sobre o Racismo Religioso. A Lei 9.512 determina que o órgão reúna e analise informações sobre violências praticadas ou tentadas contra grupos e terreiros de religiões de matriz africana e produza dados capazes de orientar políticas públicas.
A existência de uma lei específica para produzir essas informações mostra também uma dificuldade do poder público: sem conhecer onde, como e contra quem essas violações acontecem, fica mais difícil formular políticas para enfrentá-las.
A deputada estadual Renata Souza (PSOL), autora original da proposta que criou o observatório, relaciona o enfrentamento ao racismo religioso à atuação do Estado. Durante a abertura da campanha Abril Verde, realizada na Alerj em abril de 2025, ela defendeu a criação de medidas permanentes para enfrentar o problema: “Seguimos firmes na luta pela criação de políticas públicas efetivas, pois estamos tratando do direito à liberdade religiosa, garantido pela nossa Constituição.” Na ocasião, a parlamentar também cobrou a implementação do Observatório Mãe Beata de Iemanjá.
A discussão interessa especialmente às favelas porque os espaços religiosos de matriz africana não cumprem apenas uma função de culto. Em diferentes territórios, eles integram redes comunitárias e ajudam a preservar conhecimentos, práticas culturais e memórias construídas pela população negra.
Na Serrinha, essa relação pode ser observada na própria permanência da Pedreira de Xangô. A celebração religiosa não está isolada da história da favela: integra um território conhecido também pela força do jongo e por manifestações culturais negras que atravessaram diferentes gerações.
Quando ancestralidade vira política pública
Reconhecer que uma manifestação pertence à memória de uma favela não significa apenas registrar sua existência. A proteção pode depender de decisões políticas.
Leis podem reconhecer patrimônios e manifestações culturais. Governos podem destinar orçamento para preservação, cultura e direitos humanos. Órgãos públicos podem criar políticas de enfrentamento ao racismo religioso e as forças de segurança têm responsabilidade quando ameaças ou ataques impedem moradores de exercer sua religião.
No Rio, parte dessa discussão já chegou à Assembleia Legislativa
Além da criação do Observatório Mãe Beata, propostas apresentadas na Alerj tratam da proteção das religiões de matriz africana e da liberdade religiosa. Uma delas incluiu no calendário oficial do estado o Dia dos Sacerdotes e Sacerdotisas de Matriz Africana. Na justificativa do projeto, são citados ataques, ameaças e destruição de templos como formas de violência enfrentadas por essas comunidades.
Outro projeto de autoria de Renata Souza, que entrou na pauta da Alerj em março de 2026, propõe incluir a informação sobre religião nos boletins de ocorrência registrados pelas autoridades policiais. A medida pretende melhorar a identificação de crimes relacionados à discriminação e à violência religiosa.
São exemplos de como uma questão que pode começar dentro de uma favela, de um terreiro ou de uma comunidade religiosa chega à política institucional. Em 2026, essa relação também passa pelas urnas. Os eleitores escolherão presidente da República, governador, senadores, deputados federais e deputados estaduais.
No Estado do Rio, governador e deputados estaduais têm atribuições diretamente relacionadas a parte dessas políticas. A Assembleia Legislativa pode criar leis, fiscalizar o Executivo e discutir recursos para áreas como cultura, segurança, direitos humanos e combate à discriminação. O governo estadual executa políticas públicas e administra órgãos responsáveis por parte dessas ações.
Preservar a ancestralidade das favelas, portanto, não significa apenas manter uma celebração ou transmitir uma tradição dentro de uma família. Também envolve decisões sobre quais patrimônios serão reconhecidos, quais manifestações receberão proteção, quais violações serão registradas e quais recursos públicos serão destinados à preservação dessa memória.
A experiência da Serrinha ajuda a tornar essa discussão concreta. A Festa da Pedreira de Xangô permaneceu viva porque moradores e lideranças religiosas mantiveram a tradição ao longo de gerações. A continuidade dessa memória mostra a capacidade das próprias favelas de preservar sua história.
Mas o reconhecimento de que as favelas também são territórios de memória, cultura e ancestralidade coloca uma responsabilidade para além de seus moradores.
Em um ano eleitoral, a discussão sobre esses territórios também passa por identificar quais políticas os candidatos apresentam para cultura, patrimônio, liberdade religiosa e enfrentamento ao racismo e quais instrumentos terão, caso eleitos, para colocá-las em prática.
A Pedreira de Xangô permanece no alto da Serrinha como parte de uma história preservada pela própria comunidade. A política pública entra nessa história quando o Estado deixa de tratar essa memória como responsabilidade exclusiva da favela e passa a reconhecê-la como parte do patrimônio que também lhe cabe proteger.

Foto: Natasha Francisco/ Celebração da Pedreira
de Xangô No Morro da Serrinha
Este conteúdo foi produzido com apoio do Programa Orire de Apoio às Mídias Independentes 2026, iniciativa do Instituto Orire voltada ao fortalecimento do jornalismo independente e da produção de informação de interesse público.


